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sábado, 22 de março de 2014

Quando um livro conta a sua própria história.

Livro Rainha sem Faixa-ilustração Leonel Mattos
Se um livro conseguir  despertar o interesse pela leitura, mesmo que seja de apenas um leitor, já valeu o trabalho. Esta é a minha opinião como professora e escritora. Quando escrevi o meu primeiro romance, intitulado "Rainha sem Faixa", que conta a história de Beatriz, uma mulher que reflete sobre os ganhos e perdas da vida, após uma separação conjugal, tive a grata satisfação de ouvir de uma vendedora que trabalhava numa revistaria localizada no antigo Shopping Aeroclube, onde alguns  exemplares do meu livro estavam a venda, uma confissão que me emocionou e que talvez tenha me estimulado a continuar escrevendo. Ao me ver  na revistaria fazendo a prestação de contas das vendas do livro com a proprietária, ela veio ao meu encontro dizendo: "muito obrigado, eu não gostava de ler nada, mas depois que li seu livro tomei gosto e agora estou sempre lendo". Nesse momento o valor capital fica em segundo plano, porque o real valor do livro está na conquista do leitor,  proporcionando conhecimento e entretenimento. Aliás, este meu livro está cercado de episódios interessantes, começando pela ilustração da capa, feita pelo artista plástico baiano Leonel Matos, que, segundo seu bilhete enviado na época, junto com o desenho da ilustração, ele estava numa "fase" Rainha sem Faixa, se sentindo injustiçado e subtraído. Quando olhei o desenho entendi na hora o porquê da figura de capa que nada mais era que seu auto-retrato. Em se tratando de uma obra de arte de um artista talentoso que, gentilmente, aceitou ilustrar a capa, concordei com o projeto, mesmo sabendo que as características físicas descritas da personagem Beatriz, não coadunavam com a do auto-retrato, e, por este motivo, fui muito questionada por alguns leitores que achavam que o rosto que ilustrava a capa não traduzia o espírito de Beatriz. Já outros elogiavam achando-a criativa, principalmente sabendo quem era o ilustrador. Dizem os entendidos que o que vende livro é capa, mas nesse comércio competitivo, na minha opinião, o que vende é  mídia. Outro episódio interessante foi um e-mail que recebi de uma professora da Universidade Baiana de Santa Cruz, que, estando em greve, resolveu tirar um livro da Biblioteca da Faculdade onde trabalhava e o título Rainha sem Faixa chamou sua atenção, começou a ler para passar o tempo e, segundo ela, achou maravilhoso, razão pela qual estava me escrevendo não só para me incentivar, mas dizer que devido ao seu comentário o livro não parava na prateleira. Por ter sido escrito na primeira pessoa ainda me deparei com perguntas questionando se o livro era autobiográfico. É que fica difícil para o leitor abstrair, principalmente quando conhece o autor, e houve um conhecido que me apelidou de Rainha sem faixa. Este livro teve  a segunda edição através da Fazcultura da Bahia, em 2005, aprovado num projeto já quase encerrado, mas o selecionador gostou da história e o incluiu na lista. Os exemplares foram distribuídos  gratuitamente para as diversas Bibliotecas Públicas de várias cidades do interior da Bahia,  com outra capa, (ilustrada por Christiano Bomfim), que devido aos custos não podia ter as muitas cores do original.  Mesmo sem nenhuma propaganda, de vez em quando recebo e-mails, até mesmo de outros Estados, como Macapá, elogiando o Rainha sem Faixa, o que me faz pensar em relançá-lo. Depois dele já escrevi muitos outros, inclusive dois infanto-juvenis, sendo que um deles, A Rebelião do Melão Amarelão e seus Amigos, foi adaptado para peça de teatro pelos alunos da 5ª série do Colégio Sartre COC Itaigara.
Mas o primeiro livro ninguém esquece.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Pesticida e Alzheimer


foto: Global Water Partnership/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0

Estudo aponta relação entre a exposição ao DDT, agrotóxico proibido em vários países, e o desenvolvimento dessa doença neurodegenerativa. O efeito da substância parece estar associado a fatores genéticos.

O contato com um pesticida pode aumentar a incidência e a severidade da doença de Alzheimer. Os mesmos dados que apontaram essa relação podem ajudar no desenvolvimento de um diagnóstico precoce e um tratamento mais eficaz dessa doença neurodegenerativa.
O chamado DDT foi banido na década de 1970 dos Estados Unidos. Antes disso, por cerca de 30 anos, foi usado para controlar insetos que destroem safras e causam doenças em humanos e animais de criação. No entanto, em vários países do mundo, essa substância tóxica, com muitos efeitos colaterais para humanos e meio ambiente, continua sendo usada para esses fins – muitas vezes, clandestinamente.
Estudo publicado em janeiro na versão on-line de Jama Neurology, feito pela equipe de Jason Richardson, da Universidade Rutgers (EUA), encontrou níveis elevados de subprodutos do DDT no sangue de portadores de Alzheimer em fase avançada, quadro marcado pela perda progressiva de memória. Os índices mais altos estavam em portadores com mais de 60 anos de idade – a idade média dos voluntários era de 74 anos.
Estudo encontrou níveis elevados de subprodutos do DDT no sangue de portadores de Alzheimer em fase avançada
O pesticida parece não ter esse efeito em todos. Segundo a equipe, é preciso suscetibilidade genética para que a substância faça aumentar o risco da doença. No estudo, dos 84 portadores de Alzheimer, 74 deles tinham níveis sanguíneos de subprodutos do pesticida quatro vezes mais altos que os 79 outros voluntários sem a doença. Entre aqueles 74, os que tinham o gene ApoE4 – que, sabe-se, aumenta o risco para Alzheimer – apresentaram problemas cognitivos ainda mais profundos que os outros portadores.
Outro dado impressiona: apesar de o DDT ter sido banido há mais de 30 anos dos Estados Unidos, os subprodutos desse pesticida foram encontrados em cerca de 80% das amostras de sangue coletadas e analisadas recentemente, para uma pesquisa, pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças daquele país. Estudos anteriores já haviam mostrado que o DDT e subprodutos aumentam no cérebro a quantidade de uma proteína que está associada ao desenvolvimento do Alzheimer.
A sensibilidade genética a esse fator ambiental pode iluminar o caminho até um método que possibilite um diagnóstico precoce do Alzheimer. Não se sabe ainda como os pesticidas interagem com o gene ApoE4.
Parece problema distante. Mas, segundo os autores, não o é, pois o DDT pode ainda estar sendo ingerido por meio do consumo de frutas, grãos e vegetais importados de países em que a substância é usada legal ou ilegalmente. No Brasil, o DDT foi banido em 2009.
A Universidade Emory e a Universidade do Texas, ambas nos EUA, também participaram da pesquisa, cujos dados sobre a relação entre pesticida e Alzheimer ainda precisam ser confirmados.

Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje/ RJ

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Lepo, Lepo de Ivete foi uma boa resposta

Ivete Sangalo - boa resposta

Sabemos que a obesidade é prejudicial à saúde, que ela causa uma série de problemas como diabetes, pressão alta e até câncer. Atualmente o governo dos EUA está fazendo campanha para melhorar a
qualidade de vida da população  com reeducação alimentar e exercícios corporais, uma vez que a obesidade causa prejuízo aos cofres públicos no que diz respeito ministério da saúde. No Brasil a obesidade está aumentando. Mas não devemos exagerar no assunto. Ter um corpo gordinho não significa que o indivíduo está obeso, muitas vezes é a constituição natural. Fazer campanha para melhorar e reeducar a alimentação é uma coisa, querer que as pessoas tenham um corpo sarado é outra.
Recentemente, no carnaval de Salvador, um folião perguntou à cantora Ivete Sangalo se ela estava grávida só porque uma barriguinha (que ela chama debochadamente de pochete) estava um pouco saliente. Ora, além de falta de educação, a pergunta demonstra que a cultura da "barriguinha tanquinho" já tomou conta das cabeças vazias de quem só olha para o seu umbigo. A resposta que ela deu foi cantando o Lepo, Lepo à sua maneira: "Eu tenho barriga, celulite e quem gostar de mim é por causa do meu..." eu sou Ivete. Está certíssima. Essa deve ser a resposta ao bullyng que os gordinhos e gordinhas estão sofrendo nos dias de hoje com essa cultura da corpo perfeito mostrado na mídia, como se fosse possível todo mundo ter a aparência das artistas de cinema e televisão,  muitas vezes plastificadas e siliconizadas.

sábado, 1 de março de 2014

Arlindo folião




Conto




Darcy Brito






De repente, esse personagem entrou no meu juízo e tirou meu sono, lá para as duas da madrugada. Tido como um indivíduo circunspecto, muito responsável e trabalhador, pai de dois filhos e marido de uma paraibana, dizia ter horror a carnaval, tanto que preferia fazer retiro na semana momesca, e sozinho, já que mulher não podia deixar os filhos adolescentes, que eram carnavalescos, soltos na avenida. Conformada, a mulher até preparava a mochila dele. Chegada a quinta-feira, da semana do carnaval, lá se ia ele, resmungando e xingando a festa do diabo, como costumava dizer. Mas ele não atentou que, hoje em dia, o celular anda por toda parte e, muitos deles, com acesso a internet. No sábado quando a folia estava apenas começando, uma vizinha e “amiga” de sua mulher, também paraibana, mandou uma mensagem para o celular da inocente Edelzuita, esposa do dito cujo, dizendo que queria lhe mostrar uma foto muito interessante do carnaval. Lá se foi a pobre criatura na casa da vizinha, muito animada e dando pulinhos ao som do seu rádio portátil. Assim que chegou foi recebida com a frase: “Senta, criatura, que você vai ter um treco”.


- Vixe, mulher! Que foi?
- Conhece esse aqui?
- Parece com meu marido. Se não fosse o abadá diria que é ele.
- Por acaso ele tem um irmão gêmeo?
-Não.
- Então é o próprio.
- Ele está no retiro, criatura.

Aí a amiga chamou o marido, Jorge, esse sim carnavalesco confesso, e disse:
- Meu bem, conta pra ela quem é esse que você tirou a foto.
- Achei parecido com seu marido e tirei a foto. Mas, se ele não gosta da folia.... talvez não o seja.
- Você viu de perto?
- Vi, por isso fotografei, mas pode não ser ele.
- Deixe de botar panos quentes, Jorge, não iluda a minha amiga. Você disse outro dia que não acreditava nessa história de retiro, lembra? É porque já sabia de alguma coisa.

Na verdade Jorge não ia muito com os “pacovás” do marido da paraibana. - baixinho muito do antipático, tirado a melhorzinho da rua! – dizia ele.
Edelzuíta não tirava o olho da foto e dizia: Só acredito vendo, que bloco é esse, Jorge?

- É o bloco do “A Corda”. Os participantes carregam uma corda com um nó, pendurada no pescoço.
- Pois é com essa corda que ele vai se enforcar sozinho, se for ele. Vou agora mesmo para a avenida.
- Amiga, não se dê a esse trabalho, espere ele voltar.
- Voltar pra onde? Aqui ele não fica.
Mas a fofoca já tinha se espalhado e o folião foi avisado por celular da notícia que já estava correndo meio mundo. O sonso folião, muito do esperto, explicou para a companheira de bloco o que estava acontecendo e disse: amiga você tem que me livrar dessa enrascada.
- De que forma?.
- Me arranje uma vidente ou mãe de Santo.
- Não entendi
- A vidente vai dizer para a minha mulher que eu não sou eu. Que quem está no carnaval é uma entidade do além que baixa em mim todos os anos, para pagar um carma de outras vidas e que eu nem sei o que está se passando.
- Deixe de ser safado, criatura, ela não vai acreditar nisso.
- Vai sim. Sempre gostou de cartomantes e de centro espíritas.
- E aí, como vou fazer?
- Bem, temos que pensar numa estratégia convincente.
- Nem sei pra que lado vai essa coisa de espírita, vidente e sei lá mais o quê.
- É fácil. Você vai ligar pra minha mulher e dizer que me encontrou caído no chão. 
- E daí?
- Ela vai querer vir até aqui. Você me faz umas perguntas na vista dela e eu falo numa linguagem estranha que ainda vou pensar.
- Como serão as perguntas?
- Como é seu nome, por exemplo.
- E o que você responde?
- Falo o nome do pai dela que já morreu e que era um tremendo folião. Ele era conhecido como Arlindo folião.
- E se ela não acreditar?
- Continuarei dizendo que sou Arlindo até ela se convencer. Você me pergunta dos carnavais antigos e eu respondo. Depois você diz que vai chamar uma conhecida que é vidente e traz para conversar comigo.
- Só se for a Clara, ela adora essas maluquices.
Não precisou tanto. O telefone do sonso tocou e ele deu para a companheira de bloco atender.
- É a Edelzuíta.Continue falando.
- Quem está falando? –Este telefone é de meu marido - falou a esposa já desconfiada.
- Senhora, eu estou aqui com um senhor caído dizendo chamar-se Arlindo. Acho que ele bebeu além da conta - ela prendeu o riso para não estragar a mentira.
- Arlindo! Esse era o nome de meu pai, mas já morreu. Por favor a senhora poderia botar ele no telefone? Ou será que liguei errado? Veja se meu nome aparece aí na agenda, Edelzuita.
- É esse mesmo, e como é o nome dele?
- O nome dele é Roque. Chame pelo nome que ele vai responder.
- Senhora ele insiste em dizer que é Arlindo, e está bem grogue.
- Ele não bebe, não pode ser ele. Onde ele está? vou aí confirmar.

A companheira de bloco explicou direitinho o local e aguardou a chegada de Edelzuíta, não sem antes telefonar e combinar com a amiga Clara, que logo chegou, pois estava bem perto, apreciando o carnaval.

- De que se trata? Tenho que fingir ser vidente? Por quê?
- Esse aqui diz receber uma entidade com o nome de Arlindo folião, para convencer a mulher de que não tem culpa de estar no carnaval se esbaldando. Segundo contou, a mulher pensa que ele está fazendo retiro.
- Retiro?
- Pois é, e esse ano ele ia sair em três blocos.
- Por favor Clara, me ajude a convencer minha mulher senão ela vai me matar. Ela quando se aborrece o mundo vem a baixo.
- Esse história não vai colar seu doido. E eu não sei se vou convencer no papel de vidente. Já representei muitos papéis engraçados mas esse aí requer laboratório.
- O telefone tocou outra vez:
- Já cheguei mas não estou achando vocês, tem muita gente.
- Estamos aqui no posto de gasolina.
Roque se sentou todo fantasiado na beirada do passeio do posto com as duas amigas olhando.
- É ele sim - disse Edelzuita chegando acompanhada da vizinha.
- Pois então, seu Arlindo, o senhor está entregue.
- Que Arlindo? esse é meu marido Roque.
- Sem saber representar a encarnação, ele olhou para a mulher como se nunca a tivesse visto na vida e fingiu não conhecê-la.
- Seu safado, então é esse seu retiro?

Nesse momento Clara "recebeu" um espírito fajuto e disse, dando uns tremeliques no corpo: esse é o Arlindo, seu pai, mizifia. Ele está encarnado em seu marido. Seu pai gostava de carnaval, mizifia?

- E como gostava! saía numa quinta e voltava na outra depois de carnaval. Morreu de tanta bebida.

- Hum! Então é isso, ele não se conforma de ter morrido. No carnaval tem muito espírito encarnado na avenida, neste bloco já vi uns cinco, com ele, agora, são seis.

- E quem é você minha filha? Alguma pomba gira?

- Ela é uma medium, lê o futuro e baixa espírito. Agora mesmo ela está manifestada, seu marido parece realmente possuído - disse a companheira de bloco de Roque.

-Se é meu pai então ele só vai voltar na quinta-feira, ou melhor, só vai embora do corpo de meu marido depois do carnaval. Coitado, vou levá-lo pra casa trancá-lo num quarto e esperar o espírito desencarnar dele.

Nessa hora a esposa notou que algo na expressão das duas amigas não a convencia, mas fez de conta que realmente estava acreditando. Moleque safado, merece esse castigo - pensou ela. Arlindo coisa nenhuma é ele, Roque, tá mentindo. Quando namorava comigo inventava muitas histórias para se desculpar das escapadas. De três anos pra cá me veio com essa de retiro. Edelzuíta sacudiu o marido e disse: vamos papai, em casa a gente conversa. Vou botar você no quarto trancado com uma marchinha de carnaval bem alta até a próxima quinta feira, tenho certeza que você não vai querer mais ouvir falar de carnaval.
Ele, fingindo-se de tonto, cambaleou e olhou de soslaio para a vizinha como quem diz "você me paga". A "vidente" ficou preocupada e disse que ia espantar o espírito para ele voltar a si e ficar sóbrio, pois a bebedeira era do Arlindo folião e não dele. Mas a paraibana cabra macho empurrou as duas e levou o marido, que a essa altura já não sabia o que fazer para livrar-se da mentira, ou de seu Arlindo folião. No meio do caminho alguém lhe deu um forte tombo e ele fingiu acordar, perguntando o que estava acontecendo.
- Onde estou? O que você está fazendo aqui no carnaval Edelzuíta?
- Eu é que lhe pergunto se o seu retiro é o bloco "A Corda"? Pois essa corda que está pendurada no seu pescoço vai ser de boa serventia, vou lhe mandar fazer companhia a meu pai, Arlindo folião, no outro mundo.

Felizmente consegui pegar no sono de novo e não sei que fim levou Arlindo folião.




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