domingo, 21 de junho de 2015

O Socavão



O antigo Sobrado onde morei. Hoje sede de Maçonaria.
Fui criada num sobrado que tinha dois andares, duas escadarias, um sótão e dois socavões, além de um grande quintal que "encolheu" quando fiquei adulta. Mas é dos Socavões que vou falar. O socavão é uma espécie de cafua, um compartimento escuro muito usado nos colégios antigos para castigo dos alunos. Porém, o socavão da minha casa era apenas um lugar onde se guardava ou depositava coisas que não tinham mais serventia e eram jogadas ali enquanto não fossem descartadas de vez. Quando a traquinagem passava dos limites, recebíamos ameaças tipo " se teimar vou botar no socavão". E todos os irmãos tinham medo deste castigo que nunca se concretizou.  O socavão quase sempre estava fechado. Como se não bastasse um, tínhamos dois, o de baixo e o de cima. O de baixo ficava num vão abaixo da escadaria de madeira que dava para o sótão,  este tinha três grandes quartos onde dormia a criançada. O socavão de baixo se comunicava com o quarto de minha avó através de uma porta pequena, que para entrar era necessário se abaixar ou se curvar, a depender do tamanho de cada pessoa, mas uma criança pequena poderia entrar em pé. O socavão do sótão se comunicava com o último quarto através de uma portinha menor que a outra, formando um vão entre o piso de madeira, e a parte do telhado do sobrado em cima. Apenas  o pedreiro podia entrar nesse socavão caso alguma telha estivesse precisando de trocar. Era mais claro e mais limpo que o outro e só se podia pisar com bastante cuidado para não ceder o soalho sobre a sala de visitas embaixo.
 Um belo dia esqueceram o socavão do andar de baixo aberto e, eu ainda bem pequena, fui curiosamente espiar o que tinha dentro.  Foi então que um de meus irmãos, já maior, fechou a porta. Nunca me esqueci daquele breu que se formou na minha frente, acho até que foi o próprio que abriu a porta propositadamente. Quando comecei a gritar ele me deixou sair senão  ele é que iria pro castigo.Fiquei parada  na porta espiando o vão escuro cheio de tralhas, que deveriam ser mais  velhas que eu  na época. Pé de cadeira, esteira, gaiola,  banco, cabeceira velha de berço, e até penico, que minha avó chamava de urinó, tudo amontoado. Depois deste episódio não mais me interessei em espiar o socavão e nem chegava muito perto. Mas continuei com toda aquela tralha na cabeça até adulta. De vez  em   quando , sempre que tenho algo sem serventia, não só no plano material como no espiritual, lembro desses socavões  Tudo que me atrapalha empurro para o socavão da vida, tranco, aguardo uns tempos, e se não valer a pena me  desfaço. Ou piso com cuidado,quando quero evitar um desmoronamento de teto.

Falando como platéia.

Tenho muito respeito pelos artistas de um modo geral, pois acho que eles são seres escolhidos para tornar a nossa vida mais alegre e mais l...