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domingo, 26 de julho de 2015

O medo do Medo


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O medo é uma emoção herdada dos primórdios da humanidade, armazenada na mente humana, que se destinava a levar nossos ancestrais a uma decisão sobre o perigo iminente de lutar ou fugir diante de animais selvagens ou fenômenos naturais, para defender a sua própria existência.
Mas com o desenvolvimento da civilização e toda essa complexidade  das relações humanas, novos  sentimentos de medo se somaram a esse sistema, que infelizmente são responsáveis por numerosas doenças contemporâneas. Hoje em dia se tem medo de sentir medo. Tanto faz se moramos no Brasil ou em outro país como Iraque, Estados  Unidos, França, Israel etc. Um morador de favela do Rio pode  ter tanto medo de morrer quanto um palestino da Faixa de Gaza ou um iraquiano.
 Nos países onde o terrorismo está por todos os cantos, os governos procuram usar de diversos meios para se prevenir de um ataque,  embora isso não impeça as pessoas de sentirem medo. Aqui no Brasil, onde a impunidade impera, porque os bandidos  são tratados como vítimas,  o medo já se transformou em doença do pânico.  É comum ouvir pessoas falarem que não saem mais à noite com medo de assaltos. Ou seja, o medo  se antecipa ao acontecimento. Não é como sentir medo no momento do perigo como acontecia nos primórdios. Em  semáforos muito demorado ou engarrafamento de trânsito ficamos tensos. E o resultado é o enclausuramento das pessoas que se sentem ameaçadas,  tolhendo a sua liberdade de ir e vir, além do uso de tranquilizantes para enfrentar o dia a dia. 
"Para o sociólogo Zygmunt Bauman, vivemos na era do Medo Líquido, onde reina a ansiedade e o medo de tudo, da violência urbana à perda do emprego ou de pessoas amadas. Assim, conviver em espaços abertos ficou cada  vez mais perigoso". 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Ensaio recorre à fotografia e à história para compreender a saudade

Texto transcrito do Jornal Folha de São Paulo

Em meados da década passada, uma empresa britânica de tradução consultou mil especialistas em busca daquelas que fossem as palavras mais difíceis de traduzir. Saudade, em português, ficou em sétimo lugar na lista, perdendo para expressões em iídiche, árabe e dialeto africano.
Embora tenha similares em outros idiomas, como o alemão Sehnsucht e o romeno dor, a palavra portuguesa usada para definir o sentimento, esse misto de melancolia da perda e prazer da lembrança, tem nuances que escapam aos dicionários.
Divulgação
Ao unir seu reflexo ao contorno do perfil da namorada, na foto de 1984, o francês Denis Roche cria tensão entre as ideias de união e afastamento.
Tais peculiaridades foram dissecadas por séculos, rendendo incontáveis referências poéticas, como "gosto amargo de infelizes [...], delicioso pungir de acerbo espinho", de Almeida Garrett (1799-1854), além de tratados filológicos e literários, como "A Saudade Portuguesa", de Carolina Michaelis de Vasconcelos (1851-1925).
As livrarias brasileiras recebem, agora, uma tentativa de tradução ousada -escrita em francês por um estudioso de artes visuais, filho de português, que não falava nada do idioma paterno até descobrir que "saudade" traduzia tudo o que ele vinha tentando dizer sobre fotografias.
"Saudade - Da Poesia Medieval à Fotografia Contemporânea, o Percurso de um Sentimento Ambíguo", de Samuel de Jesus, 41, foi apresentado em 2010 como tese de doutorado na Sorbonne e chega ao país, pela Autêntica, na tradução de Fernando Scheibe.
Espécie de biografia desse enigma português, o ensaio aborda as origens da palavra, entre os séculos 12 e 16, e seus usos literários até chegar aos séculos 20 e 21, nos quais, para o autor, o sentimento ganhou importantes representações iconográficas.
Tem cerca de cem imagens -quase todas belíssimas, mas que infelizmente aparecem miúdas em meio ao texto na edição-, principalmente de fotógrafos franceses, como Pierre Verger, portugueses, como Jorge Guerra, e brasileiros, como German Lorca.
Hoje professor da pós-graduação em artes visuais da Universidade Federal de Goiás, Samuel de Jesus é filho de um sapateiro que, em 1962, escapou da obrigação de servir em campanhas portuguesas na África migrando para a França, onde se casou com uma tipógrafa.
A história familiar o levou a se interessar pela questão da memória -ou do esquecimento- da cultura portuguesa na França. A saudade embutida nessa questão lhe foi apresentada pelo livro de poemas "Só", de António Nobre, que aparece no filme "Porto da Minha Infância" (2001), de Manoel de Oliveira.
"A partir daí comecei a trabalhar para tentar definir o que poderia ser a imagem da saudade e como esse sentimento se configura na fotografia", diz o autor.
As duas primeiras referência históricas encontradas por ele na iconografia datam do mesmo ano, 1899, quando o português António Carneiro pintou o tríptico "A Vida: Esperança, Amor, Saudade", em que o último sentimento do título aparece na imagem de uma mulher vestida de preto, com o olhar vago, ao pé de uma esfinge.
Essa simbologia misteriosa contrasta com o uso mais direto que, ao mesmo tempo, o brasileiro José Ferraz de Almeida Júnior usava na pintura "Saudade", em que uma mulher, cobrindo a boca com um véu, lê uma carta.
Nas fotografias selecionadas para a obra, a saudade não está necessariamente nos títulos -são leituras do autor a partir de imagens, que evocam espera, falta, retorno.
"O ato fotográfico é um gesto que inicia uma saudade, porque suspende um instante para perpetuá-lo. De certa forma, toda fotografia é um monumento à saudade", diz Augustin de Tugny, professor de belas artes da Universidade Federal do Sul da Bahia, que assina a apresentação do estudo.
ORIGENS
Parte da pesquisa de Samuel de Jesus já havia aparecido, no início deste ano, na exposição "A Arte da Lembrança - A Saudade na Fotografia Brasileira", em São Paulo, com curadoria de Diógenes Moura, que trabalhou em parceria com o francês.
Não é um recorte que tenha atraído pesquisadores. Embora estudos sobre a saudade na literatura tenham proliferado no século 20, o olhar pela fotografia é considerado inovador por estudiosos como o português Duarte Nuno Drumond Braga e o italiano Antonio Cardiello.
Braga, hoje pesquisador do pós-doutorado em estudos comparados de literatura na USP, diz que a saudade está intrinsecamente ligada à história de Portugal.
"É uma história de emigração, de afastamento, um país pequeno com uma população que sempre partia, nas navegações, no período colonial, nas crises do século 20", diz. As origens da palavra remetem tanto a "solidão" quanto a "saudação".
Em suas próprias raízes, Samuel de Jesus descobriu na prática o impacto da saudade na fotografia. Ele conta que, anos atrás, ao entrar no sótão empoeirado da casa da avó, deparou com uma pilha de fotos. Numa delas, uma menina de dez anos chamou a sua atenção -era sua mãe.
"Nesse momento, me senti atingido por esse sentimento estranho de uma saudade do futuro, uma espécie de sensação de perda, de uma falta futura que despertou em mim um momento de tristeza e de alegria", conta.
QUASE LÁ
Palavras que chegam perto da saudade
Sehnsucht (alemão)
Embora exprima falta, nostalgia, se diferencia por também significar o desejo por algo futuro
Dor (romeno)
Desejo intenso de rever algo ou alguém, mas com uma dimensão mais física (a nossa dor, em romeno, se chama "durere")
Spleen (inglês)
A palavra, que significa baço e no romantismo foi associada à melancolia, está mais próxima da saudade do que o "to miss", sentir falta
Regret (francês)
Espécie de nostalgia, mas mais usada no sentido de arrependimento, lamento

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Poema casado

Mais importante 
que raízes 
as sementes
 são.
Estas  libertam
aquelas
 aprisionam

Mais sementes 
que raízes
sou. 
Seja  amor, 
seja dor, 
espalho aonde vou.



Darcy Brito