Pesquisar este blog

quarta-feira, 30 de março de 2016

Por um Brasil Melhor

A importância da História, seja ela da origem do Universo, do Homem, das Raças ou da formação de uma Sociedade, é indiscutível, devendo ser abordada e lida sempre que necessária. Mas o que devemos evitar é culpá-la pelos erros cometidos hoje só para justificá-los. A respeito da política no Brasil, costumamos ouvir que a corrupção e o roubo sempre existiram desde o Império, que não é novidade nenhuma essa tal de barganha, propina ou seja lá que nome queiram dá a essa prática vergonhosa que vemos hoje, superando todas as outras já cometidas em outros governos. E, em se tratando de um país com tantas carências e desigualdade social, achar que é normal arrombar os cofres públicos para enriquecer e se manter no poder, além de desumano é um crime. Crime contra a vida e dignidade do povo e da Nação. Não tem cabimento defender um governo corrupto seja lá porque motivo for. Fanatismos devem ser combatidos, principalmente se eles trazem prejuízos, guerras ou separação de povos. Ultimamente o que vemos neste governo é a incitação ao ódio, de pobre contra ricos, negros contra brancos, cujo único objetivo nada mais é que o poder pelo poder, aproveitando-se de pessoas humildes e sem informação para tirar vantagens. É fato, por exemplo, que o racismo sempre existiu, mas nunca foi tão aguçado. Essa transparência pode até ter trazido benefícios, já que o combate a essa prática abominável tem também se intensificado. Mas o que não está explicado é que não foram os " brancos" de hoje que escravizaram os negros de ontem, e que os negros ou mestiços de hoje são, na sua maioria, nascidos, educados e enraizados em terras brasileiras, apesar das origens africanas. As raízes são importantes para se entender a história de um povo, porém muito mais importantes sãos os frutos que produzem, assim como as sementes de uma árvore que é transportada e reimplantada em outras terras cuja seiva os alimentaram, muitas vezes lhe dando um sabor todo especial.
Que este novo Brasil que estamos lutando para melhorar surja com outra mentalidade.

Teori versus Moro


O grande sofista Protágoras  já dizia não haver a Verdade, e sim a verdade individual.
No meu entender " filosófico",  a sentença  de um Juiz está para o réu assim como o diagnóstico de um médico está para o seu paciente. De uma forma ou de outra, se estão lidando com destino e vida de pessoas, não podem errar. Ambos trabalham com  interpretação de fatos coletados, seja nos depoimentos e provas, no âmbito da justiça, seja na anamnese e exames clínicos, no âmbito da medicina. A diferença está na subjetividade da interpretação que no caso da justiça costuma acontecer. Na ciência médica tudo é baseado em conhecimentos científicos aplicados na medicina, e subjetividade nesse caso é mais difícil.  Ainda bem.
Direito é subjetividade, é interpretação, é percepção, dizem os entendidos.
Porém uma coisa é imprescindível sempre,  a Ética.
O inciso III do art. 1º da Constituição Federal diz que a dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Por que estamos espantados com o Lava-Jato?


Porque nunca na história deste país, de corruptos contumazes, se imaginou que pudesse surgir, como se fosse um E.T., alguém com coragem de enfrentar empresários e políticos poderosos, que sempre trocaram favores em benefício próprio. Ninguém podia imaginar um Juiz competente, corajoso e disposto a acabar com a safadeza geral. Muito menos que esse Juiz fosse um profissional sério, confiante e com uma equipe tão séria e eficiente quanto ele, como são esses jovens que compõem essa nova geração de procuradores, com uma visão global das leis que regem o país. Se Cabral descobriu o Brasil, e trouxe para a Terra Brasilis, pertencente aos Índios, seus degredados que cometeram crimes em terras portuguesas, como forma de castigo, o Brasil descobriu o Juiz Sérgio Moro para mudar o DNA dos "descendentes," daqueles que aqui aportaram, se apoderaram, exploraram e saquearam nossas riquezas através dos senhores feudais larápios, que deram origem a esse bando de políticos corruptos, que, por serem herdeiros, acham muito natural continuar roubando. 
O brasileiro de agora em diante vai ter que aprender a ser mais honesto. Não cabe mais, depois dessa Lavagem, continuar com comportamentos que nos carimbaram de desonestos, trapaceiros, espertalhões, aproveitadores, durante tantos anos. Os brasileiros de bem agradecem e parabenizam a todos os que estão empenhados nessa mudança.

sábado, 5 de março de 2016

EXCELENTE TEXTO DE UMA JORNALISTA SOBRE DISCURSO DE LULA


por Sônia Zaghetto. Artigo publicado em 05.03.2016




Assisti ao discurso do ex-presidente Lula da forma o mais isenta possível e mente aberta. Obviamente não esperei grandes mudanças, mas imaginei que haveria um pouco de autocontrole como demonstração de inteligência. Aguardei alguma demonstração de contenção, se não por gestão de imagem, mas como medida destinada a não aumentar a grande fogueira dos ódios deste país. Imaginei que, dado o momento inédito em sua vida, manifestaria algum respeito aos milhões de brasileiros cujas mentes não se curvam à retórica barata. Em vão: palavras vazias, em uma fala recheada de clichês e tolices, plena de auto louvação, piadas grosseiras, delírios narcisistas e frases piegas que comoveriam apenas pré-adolescentes ou amigos encharcados de boa vontade.

Houve, ainda, uma revisita a dois clássicos: a velha estratégia vitimista sobre a perseguição movida pelas elites por ser o redentor dos pobres; e o desejo sádico de alimentar um pouco mais o ódio que hoje divide seus compatriotas. Observei-lhe o rosto contorcido, a expressão raivosa, a incapacidade de se reconhecer como cidadão comum, submetido às leis do país. E entendi: Lula hoje acredita piamente na imagem que ele e seus aduladores criaram. Para ele, é inadmissível que seja investigado, ou conduzido a depor: trata-se de falta de respeito. Logo ele, tão grandioso, dotado de tal inteligência que chega a mencionar com desprezo os que dedicam longos anos ao estudo.

Atrás dele, uma multidão aplaudia, mesmerizada. E me veio à memória uma história que se conta sobre Julio Cesar. Ao entrar triunfante em Roma, quase semideus em sua dourada carruagem, trazia consigo um escravo que o prevenia contra os excessos da vaidade, lembrando-o, de tempos em tempos: "Memento mori!" (Lembra-te que és mortal!).

É uma pena que Lula não tenha entre os seus quem o alerte para os excessos intoxicantes da vaidade que cega.

É uma pena que Lula ame apenas a si mesmo e não ao país, transformando uma parte significativa de nossa população em inimigos sobre quem açula seus cães.

É uma pena que ninguém lhe diga, francamente, que o rei está nu - que sua habilidade de comunicação só funciona para dois segmentos: os que se renderam a essa nova forma de fanatismo criada por seu partido; e a parcela da população cuja ausência de educação é louvada como vantagem e não como vergonha.

Despido de riquezas morais, passará à história como fanfarrão histriônico.

Órfão de qualidades éticas, não consegue reconhecer que ultrapassou todos os limites.

Desabituado à reflexão, não vê além dos limites das necessidades básicas.

Embriagado pela bajulação, não consegue ver nas críticas de milhões de brasileiros a advertência severa para seus excessos.

Tudo isso, Lula já havia demonstrado sobejamente em ocasiões anteriores. Hoje apenas reafirmou, em rede nacional, que desconhece o significado da palavra grandeza.






sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Usando a metáfora do futebol.

Foto Google



O time era orientado pelo técnico e seus dirigentes para ganhar o jogo, usando os métodos implantados por eles. Só era contratado o jogador que concordasse com as regras. Também os juízes e seus assistentes tinham que seguir a cartilha. Para isso muito dinheiro rolava nesses acordos, o que incentivava a realização da tarefa. No campo, em disputa, acontecia de tudo, desde canela quebrada do adversário até gol feito com a mão, e, os apitos dos juízes e bandeiras de seus auxiliares , mesmo estando a poucos centímetros dos jogadores, não eram acionados. E não adiantavam protestos dos adversários ou xingamentos da torcida. A renda era compensadora, até mesmo para alguns torcedores fanáticos que ganhavam ingressos gratuitos e lanches, para irem à arena torcer a favor. Jogador adversário, quando se destacava, se via tentado a mudar de time, diante da oferta que recebiam dos poderosos. Mas, como a surpresa não avisa e o dinheiro cega, ninguém imaginava que um dia fosse surgir um juiz que, ao contrário dos outros, iria dá um basta em toda aquela situação de desmoralização que a nação de chuteira estava sofrendo. Distraídos nas mordomias em que se encontravam, seus dirigentes e técnicos se viram de repente estupefatos e ofendidos, quando o juiz começou a expulsar jogador infrator, no jogo em que estava comandando com seu apito exclusivo. O técnico tentou entrar em campo para protestar e foi expulso, o dirigente blasfemava, ameaçava tirar o apito da boca do árbitro, mas não tinha coragem de peitar um juiz que sabia tudo e enxergava longe. A torcida fanática xingava a mãe do juíz, os jogadores comprados, pensando no trato e na grana que poderiam perder, continuaram cometendo infrações. O juíz foi condenando um a um, e o Jogo foi suspenso. Agora, ovacionado pela maioria da platéia, e com a bola toda nas mãos, ele aguarda o próximo jogo.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Bassinho, 

o Jardineiro do Rei

 Conto                                                                                              Darcy N. Brito



Kalada, é uma pequena cidade, e uma das poucas, talvez a única, que ao contrário do resto do país não conseguiu libertar-se da ditadura. Isto porque é governada por um todo poderoso que se auto-condecorou rei, e a governa há várias gerações. Todos os seus habitantes são observados como se vivessem num grande Big Brother. Ninguém se atreve a desobedecê-lo, sob pena de sofrer as mais incríveis retaliações. Todas as ruas, avenidas ou estabelecimentos públicos recebem o seu nome ou de algum membro de sua numerosa família. Quem não está com o rei é seu inimigo em potencial. Nada se faz sem o seu aval, seja um mini comércio, uma fábrica, uma construtora ou um hospital, Durante as eleições seus “eleitores” e correligionários recebem ameaças, caso haja traição. Os comícios festivos são recheados de promessas nunca cumpridas. Jornal que não está com o rei é fadado à falência, por falta de anunciantes. Mas, o incrível é que sua imagem é cultuada como um deus que protege os seus fiéis. Ai de quem falar mal de seu senhor, que até chora nos enterros de seus fiéis. Compadece-se dos pobres, beija criancinhas, velhinhos, e emprega quem estiver imbuído nos seus propósitos.

É nesta cidade que mora Basilio Filho, ou Bassinho, apelido carinhoso que Basílio pai, cabo eleitoral do rei, lhe deu para diferenciar de seu próprio nome.

Bassinho estava desempregado quando seu pai resolveu pedir ao “senhor todo poderoso” que arranjasse qualquer coisa para seu filho ganhar dinheiro. Não queria pedir a intermediário ou santo sem força. Foi direto a “deus”, pois, tinha cartaz com o homem de causar inveja. Lá chegou e expôs seu problema.

- Coronel, com licença. É que meu filho Bassinho tá muito precisado, e....

Nem completou o pedido e o todo poderoso retrucou zangado: não sou coronel, não me ofenda!

-Desculpe, quero dizer, majestade, excelência.

-Muito bem, fale. Ele é deficiente? Perguntou o rei batendo o fundo da caneta na mesa. É que só estou dando emprego a deficiente. Sabe como é? – e, piscando o olho, continuou: dá voto e ameniza o sofrimento dessas criaturas. Vá falando.

-Deficiente, assim, de quê?

- De qualquer coisa. De preferência surdo-mudo ou cego. Pelo menos esses ingratos não vão sair por aí falando mal do governo, nem dizendo que viu isso ou aquilo, sabe como é?

-Entendi. Por sorte meu Bassinho é deficiente.

-Por sorte! Você é um pai desalmado, desnaturado.

-Não, senhor. Quero dizer, por coincidência de deficiência.

-Qual a deficiência dele?

-Tudo. E ainda por cima tem mulher e filho.

-Mas, de concreto, o que poderia ele fazer na prefeitura, que é onde posso arranjar um emprego, talvez de jardineiro?

-Jardineiro! É sopa no mel. Ele adora flores, tem mãos de adubo; as plantas lá de casa são viçosas que só vendo. Pena que ele não pode ver.

-Então, ele é cego?

-Cego, surdo e mudo como o senhor gosta, quer dizer, como o senhor está precisando.

-Huum! Entendi. Lida com flores, mas não enxerga.

-Sim senhor.

-Pelo menos sente o aroma que elas exalam?

-Depende da flor. Se o cheiro for muito forte ele tapa o nariz.

-Sei, sei. Acho que tenho um serviço pra ele. Amanhã me traga o deficiente.

-É uma ordem, coronel. Desculpe. O senhor já disse que não é coronel, quero dizer excelência, majestade. Até amanhã.

Basílio foi ao encontro do filho Bassinho cheio de esperança. Não só iria arrumar a vida do filho, como, também, prestar serviço à sua excelência majestade. Chegando a casa encontrou o “deficiente” ouvindo um som bem alto, digamos ensurdecedor.

Para, para! Você não pode ouvir este som. De agora em diante está proibido. E nada de revista de mulher pelada também. Onde já se viu um cego surdo e mudo dançando e lendo revista pornô!

-Pirou pai? Foi o senhor quem trouxe essa revista. E o som de pagode? Não gosta mais? Que história é essa de cego, surdo? Eu hein!

-Você é um deficiente.

-Agora o senhor me ofendeu. A troco de quê?

-A troco de um bom emprego que acabo de arranjar para você.

-E precisava dá a notícia dessa maneira? Vamos comemorar o grande acontecimento.

-Na verdade não podemos comemorar, ainda. Você vai ter que passar no teste.

Teste? Ah! Logo vi. Já fiz vários e não deu em nada. Tô fora.

-Fora coisa nenhuma. Dessa vez só depende de você. Das outras já se sabia o resultado, eram cartas marcadas.

-E o que devo fazer?

-Primeiro vamos ter que providenciar uns óculos escuros, desse de cego.

-Oba! Vou ficar um charme.

-Um aparelho para surdez, ou seja, pra ficar surdo mesmo. Daqueles que se usa pra não ouvir nada. Só que deve parecer que é pra surdo ouvir alguma coisa.

-Então é emprego em teatro!

-Digamos que sim. Mas não é ficção, é emprego real. E para ser aprovado você tem que convencer que realmente é deficiente. Não ouve, não vê e nem fala.

-Pelo menos posso balançar a cabeça, em sim ou não, caminhar, ou sou tetraplégico também?

-Claro que pode. Não sou tão desalmado a esse ponto. Afinal um jardineiro tem que caminhar muito para florir uma cidade.

-Jardineiro? Você me arranjou um emprego de jardineiro que não enxerga, não fala nem ouve? Eu que nunca soube fazer diferença entre um pé de laranja e uma bananeira, mesmo sendo normal!

-Por isso mesmo. O homem quer um jardineiro com essas qualidades que lhe falei. O papel é seu, é pegar ou largar. E não se faça de rogado que o emprego está de bom tamanho. Além do mais, a cidade estava precisando de alguém que gostasse de flores. O povo merece.

-O senhor quer dizer que meu serviço será plantar flores?

-E que mais um jardineiro deve fazer? Um deficiente, ou melhor, uma pessoa com necessidades especiais como falam agora, tem lá suas limitações. Não vá querer ir muito em frente, senão você pode dar com a cabeça na parede.

-O senhor só pode estar troçando de mim.

Troçaaando! Estou lhe dando a chance de mostrar que é um bom ator e você me diz isso? Mal agradecido, é o que você é. Sempre acreditei em você, de outra forma não teria falado com sua excelência majestade, o coronel todo poderoso.

-O senhor estar me dizendo que falou com...

-Isso mesmo. E ele só está dando emprego a deficiente, daí achamos que você seria per-fei-to.

-Per-fei-to? Bom seria se o “r” viesse depois do “p”.

-Bem, aí quem sabe, futuramente. Você seria o primeiro prefeito com necessidades especiais eleito. Com apoio de sua excelência, o todo poderoso coronel, é claro.

-O senhor está esquecendo que eu sou normal.

-Era. Agora é um aprendiz de político.

-Ou seja, para me dar bem tenho que ser deficiente.

-No momento não temos saída. Outra coisa: arranje uma mulher e filho. Tive que aplicar mais essa.

-Isso é mais complicado que me fingir de cego. Mentir pra mulher é mais difícil. Mas, aceito o desafio. Nada tenho a perder.

-Tem sim. Não se esqueça que vai ficar deficiente. Vamos começar o treino. O de cego, naturalmente, porque não adianta aprender o alfabeto de surdo mudo porque não vai ser preciso, você não veria a leitura labial ou de sinais.

-E a leitura em Braile?

-Também não, porque você não ouviria as pronúncias. E identificar as coisas tato por tato é inviável.

-Bem que você poderia ter dito que eu era apenas cego. E me arranjar um emprego numa telefônica estatal.

-Tá doido? Envolver-se com grampo? A culpa iria sobrar pra você.

-Então mãos à obra, já estou me sentindo com três sentidos a menos. Pensando bem, vai ser bom, esses três sentidos nos deixam muito estressado. Meu cachorrinho, por exemplo, que Deus o tenha, era inquieto, latia a toda hora, mas quando ficou mais velho, surdo e cego, vivia calmíssimo até o dia de morrer.

-Pois é isso, sempre aprendemos algo nas tragédias.

Os dois começaram o treino pelos óculos pintados de preto, para não enxergar mesmo e transmitir mais autenticidade. Arranjaram uma bengala e saíram batendo a torto e a direito. Mas, aí pensaram: como seria a comunicação com sua excelência? Ou seja, saber o que ele queria que Bassinho fizesse. Sim, porque ninguém naquela cidade tinha vontade própria, muito menos um deficiente. Então deixaram para acertar tudo na ocasião do encontro com o chefe.

Bem treinado, lá se foi Bassinho com o pai acertar o cargo com sua excelência majestade.

-Aqui está ele, coron... majestade.

-Qual o grau de surdez dele? Vejo que usa um aparelhinho.

-Apenas ruídos, sem identificação, e, ás vezes, ele até tira essa coisa, quando conveniente. Quando sai na rua coloca para ouvir o barulho dos carros. Mas enxergar, não enxerga nada.

-Muito bom. Mas de que forma devo dar ordens, em que sinal?

-Da forma que achar melhor. O senhor escolhe.

-Sei. Vamos supor que eu quero que ele plante rosas num determinado trecho, aí, posso dá uma bicuda de leve na canela direita dele?

-Claro! Canela dura e forte que nem a dele o senhor não vai encontrar.

-Caso ele não entenda, dou com mais força.

-Certo. Deixe-me anotar para treinar em casa.

Seu Basílio tirou um caderninho e foi anotando tudo.

-Tudo bem. Agora suponhamos que quero que ele cave a terra para colocar adubo, dou uma bicuda na canela esquerda.

-Pois não. Canela esquerda adubo, anotei.

Bassinho estava curioso para saber como era o sapato do ditador, se era bico fino ou largo. Mas tinha de fingir, e esse foi seu primeiro teste. Tudo parecia estar dando certo, quando o chefe todo poderoso deu um berro num Secretário de Estado, que veio apresentar um dossiê incompleto. O grito foi tão grande que Bassinho se assustou e quase cai. E o pai falou para o manda tempestade:

-Vou tirar o aparelho de ouvir ruídos, que é para sua majestade ficar à vontade.

-Desconfiado, o coronel mirou Bassinho em vários ângulos e disse: vá se acostumando.

-Bassinho já ia balançar afirmativamente com a cabeça, quando seu Basílio pisou no pé dele com força. Não agüentando a dor, ele urrou bem alto:

- Aaaaii!

-Que foi isso?Perguntou o rei. Ele não é mudo?

-É, respondeu o pai. Mas tem sentimento. É que pisei no pé caloso dele sem querer.

-Então não vai agüentar as minhas bicudas.

-Vai sim, senhor. Suas bicudas serão pro bem dele. Depois de treinado e calejado, ele acostuma.

-Assim é que se fala. Aguardo seu retorno, quando ele estiver preparado para o cargo. Caso você ache conveniente compre umas caneleiras, dessas de jogador de futebol. Acho que ele vai precisar. O coronel falou piscando o olho.

Basílio e Bassinho saíram apreensivos e se esqueceram da bengala na sala de sua excelência, que já estava desconfiado da eficiência do deficiente, ou, da deficiência do eficiente. Olhou bem para a bengala e disse com seus botões – bengala novinha em folha.

Basílio não deixou que Bassinho andasse sem os óculos pelas ruas e teve que segurá-lo pelo braço por todo o trajeto. Um amigo, que passava pelo outro lado da rua, atravessou aflito e veio perguntar o que estava acontecendo.

-Nada, nada, respondeu o pai. Ele é um dos candidatos como figurante, num filme que vai ser rodado aqui em Kalada. Está treinando pra ser o cego.

-Poxa, que susto! Será que tem um papel pra mim?

-Só se você for deficiente de verdade.

-Mas Bassinho não é cego de verdade e...

-Fingir que é cego é fácil, difícil é ser coxo. Tem que ter as pernas deformadas e se arrastar pelo chão.

-Precisam de coxo? Na situação em que estou bem que poderia dá um jeito de arranjar alguém que quebrasse minhas pernas.

Não se faz um coxo assim de repente. Tem que ter as mãos calejadas de muito tempo e saber andar se arrastando ligeiro. Lembra do ditado, “mais fácil pegar um mentiroso que um coxo?” ( foi aí que Basílio lembrou-se da bengala).

-Mas cinema tem artifícios, efeitos especiais – falou o amigo.

-Mas se tem coxo no enredo, a platéia quer autenticidade, são sádicos – disse Basílio já nervoso pensando na bengala. Depois a gente se fala, estamos com pressa.

-Chegando a casa, pai e filho comentaram sobre a bengala:

-Nem vou voltar lá, pai. Ele é capaz de quebrar a bengala na minha cabeça. O senhor mesmo disse: mais fácil pegar um mentiroso...

-Para ele não importa a mentira, o que importa é saber fingir, convencer. Precisamos pensar no que dizer a respeito da bengala. Às vezes há males que vem para o bem.

-Não entendi.

-Se dermos uma explicação convincente, iremos nos encaixar perfeitamente nos planos dele.

-Continuo sem entender, mas, tudo bem. O senhor deve conhecer melhor a peça.

-Sua função é só a de ser deficiente.

-O que já requer talento demais.

-Ah! Sempre achei que você seria um grande deficiente.

-Obrigado pelo incentivo, não vou decepcioná-lo.

Voltando ao todo poderoso, que o recebeu mostrando a bengala, seu Basílio foi logo dizendo; -Ah! Quando ele está comigo não precisa de bengala, foi por isso que não voltei para buscar de imediato.

-Acredito, vamos às primeiras ordens- o coronel falou com a ponta da bengala na barriga de Basílio.

E, realmente, Bassinho acatou todas as ordens vindas de sua excelência o coronel, e desempenhou seu papel da melhor maneira que pode. Quando errava, tomava umas bicudinhas na canela, mas até achava graça.

Passaram-se os dias. Uma florzinha aqui, outra acolá, e a cidade foi ficando toda florida. Tão florida que Bassinho sentiu-se dono do jardim. As pessoas o chamavam de O Jardineiro do Rei. Ele, é claro, tinha que fingir que não ouvia, mas não gostava do apelido.

Um dia, por ter recebido uma canelada mais forte, na canela esquerda, a do adubo, que deveria ser colocado no jardim do rei, e não o foi, o jardineiro achou que era hora de dar um basta em toda aquela farsa. Mesmo porque, ele sabia que junto com o adubo sua majestade o coronel, escondia detritos mal cheirosos. Resolveu, então, tirar os óculos escuros de cego e colocar um de grau, pois de tanto olhar no escuro estava realmente ficando cego. Chamou o povo e abriu a boca no mundo.

-Estou curado!

O povo ficou estarrecido e começou a gritar: MILAGRE! MILAGRE! O jardineiro do rei está enxergando e falando. Aplaudiam, queriam beijar-lhe as mãos e o chamaram de Santo.

Toda essa manifestação, porém, incomodou sua excelência majestade o rei, que tratou de arranjar um substituto para baixar a bola do petulante jardineiro, e chamou o pai do “deficiente”.

-Então seu filho botou as manguinhas de fora? Deu com os burros n’água.Vai ver o que é bom pra tosse. De hoje em diante nem flor nem adubo e muito menos água. A fonte secou. Deve estar plantando muda no próprio quintal, o ousado. Vou cortar o cano do safado. O rei coronel soltava fogo pelas ventas.

Basílio, cabisbaixo, disse:

- Pois é meu rei, eu tentei segurar, mas, não deu. Quando dei por mim o povo já estava na rua. E com a força do povo sua excelência sabe que surdo ouve, mudo fala e cego enxerga.














domingo, 27 de dezembro de 2015

Como o segundo maior lago da Bolívia desapareceu?


O lago Poopó virou um deserto (Foto: Reuters/David Mercado)
O lago Poopó virou um deserto (Foto: Reuters/David Mercado)
BBC
26/12/2015 15h57 - Atualizado em 26/12/2015 15h57

Como o segundo maior lago da Bolívia desapareceu?

Lago virou praticamente um deserto e 200 espécies migraram ou morreram; mudanças climáticas e má gestão estão entre causas.

Da BBC
tópicos:
"Temos um lago que desapareceu, agora é pampa; um deserto onde não se pode semear nada, nem produzir; não há nada, muito menos vida."
Com essas palavras, o dirigente camponês Valerio Rojas descreveu à agência de notícias Efe a situação do lago Poopó, o segundo maior da Bolívia, atrás do Titicaca.
O lago de água salgada, localizado no departamento de Oruro, que faz fronteira com o Chile, tinha uma extensão de 2.337 quilômetros quadrados.
Mas agora ele foi reduzido a três áreas úmidas, espécies de charcos, de menos de um quilômetro quadrado e apenas 30 centímetros de profundidade.
A catástrofe vinha sendo anunciada há anos e tem um forte impacto ecológico, econômico, social e político.
Ela representa a destruição de todo um ecossistema, a perda de espécies centenárias de fauna e flora, o desaparecimento de culturas pelo êxodo de comunidades que sobreviviam do lago e a falta de ações efetivas para enfrentar a seca.
Um lago de 2.337 km² foi reduzido a poucas áreas úmidas (Foto: Reuters/David Mercado)
Um lago de 2.337 km² foi reduzido a poucas áreas úmidas (Foto: Reuters/David Mercado)

Perdas ambientais e humanas
Segundo especialistas, cerca de 200 espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis e uma grande variedade de plantas desapareceram com a seca do Poopó.

O ornitólogo Carlos Capriles disse ao jornal boliviano La Razón que, entre as aves que foram forçadas a abandonar o lugar, havia três espécies de flamencos ameaçados de extinção.
"Com o desaparecimento do Poopó, o habitat (das aves) se reduz e aumenta o risco de extinção", explicou Capriles.
Segundo ambientalistas, cerca de 200 espécies migraram ou morreram (Foto: Reuters/David Mercado)O especialista explicou que o lago era o ponto de descanso de aves migratórias que se deslocavam do norte para o sul. "Falamos de cerca de 200 espécies que pereceram ou foram para outras áreas."
Segundo ambientalistas, cerca de 200 espécies migraram ou morreram (Foto: Reuters/David Mercado)
Outros ativistas ambientais acrescentam que numerosos mamíferos, répteis e anfíbios ficaram sem habitat e alimento com a transformação do lago em praticamente um deserto.
Mas o pior aconteceu com os peixes, segundo Capriles. Eles não puderam migrar, como os outros animais, e morreram no local.
O Ministério do Meio Ambiente e Água confirmou a perda de uma grande quantidade de espécies únicas, ainda que não se saiba a quantidade exata. Eles planejam realizar uma contagem.
O desastre também teve um custo humano. Cerca de 350 famílias, em sua maioria de pescadores do lago, foram afetadas.
Com o deslocamento forçado também desaparece a cultura da comunidade, que sobrevivia do próprio lago Poopó em uma economia de subsistência.
Causas do desastre
A bacia do Poopó foi declarada, em 2002, um ecossistema de importância internacional onde a água é o principal fator que controla o ambiente, assim como a vegetação e a fauna.

Mas então como ele desapareceu?
As razões são complexas e vão desde os efeitos climatológicos e manejo problemático de recursos aquíferos até a atividade humana, a contaminação e a falta de atenção a um desastre que todos já viam que estava prestes a ocorrer.
Peixes foram os mais atingidos (Foto: Reuters/David Mercado)Peixes foram os mais atingidos (Foto: Reuters/David Mercado)
As análises do governo apontam o fenômeno El Niño e o aquecimento global ocasionado pelos países industrializados como culpados.
O vice-ministro de Recursos Hídricos e Irrigação, Carlos Ortuño, cita dados científicos que estabelecem que a temperatura mínima aumentou 2,06º C nos últimos 56 anos, e que o El Niño provocou secas desde outubro.
A falta de água como fruto da ação humana também é apontada como uma das causas.
Os lagos Poopó e Titicaca dependem da entrada de água do rio Desaguadero. Mas um plano diretor da década de 1990 acabou privilegiando o Titicaca, impedindo a passagem de água para a bacia do Poopó.
Além disso, o próprio rio foi afetado pela atividade humana, que o usa para seus cultivos, sistemas industriais e de mineração.
Esta última atividade causa contaminação. Oruro é um departamento mineiro e a extração, há anos, é feita de forma "não responsável", disse o vice-ministro Ortuño.
Mas ele também destacou a má administração de um fundo que foi feito para evitar a seca do lago.
Em 2010, a Bolívia e a União Europeia firmaram um acordo segundo o qual haveria um fundo de cerca de US$ 15 milhões para o programa Cuenca Poopó (Bacia Poopó).
O ex-prefeito de Oruro, Luis Aguilar, em cuja gestão foi assinado o acordo, disse que seu sucessor foi "mal assessorado" no manejo do dinheiro, que foi usado para "projetos sem sentido" e foi "esbanjado" sem conseguir a recuperação do lago, de acordo com o jornal La Razón.
O ex-diretor do Serviço Departamental Agropecuário, Severo Choque, diz que também "não se priorizou de maneira adequada o trabalho específico no lago".
Mau uso da água também contribuiu para desaparecimento do lago (Foto: Reuters/David Mercado)
Mau uso da água também contribuiu para desaparecimento do lago (Foto: Reuters/David Mercado)
Recuperação, um desafio
Vários críticos pediram que seja realizada uma investigação para descobrir os responsáveis pela falta de ação que permitiu o desastre.

"O custo desse desastre deve ser manejado com absoluta rigidez na identificação de seus responsáveis", escreveu o colunista do jornal La Prensa Enrique A. Miranda Gómez.
Ele pediu que fosse colocada em prática uma política sustentável de "reprocessar o curso das água que vêm do Titicaca e investir em ajuda para populações afetadas, dando a elas infraestrutura produtiva, apoio social e sobretudo segurança aos mais jovens".

O vice-ministro de Recursos Hídricos e Irrigação, Carlos Ortuñez, e o governador de Oruro, Víctor Hugo Vásquez, informaram que seriam destinados US$ 3,25 milhões principalmente para ajuda humanitária e trabalho técnico sobre a corrente de água que chega ao Poopó através do rio Desaguadero.
Na terça-feira (22), o governo boliviano e o departamento de Oruro anunciaram um plano para "reconstruir" o lago Poopó.
Também citaram um financiamento internacional para o chamado Plano Diretor da Bacia do Poopó que vai exigir, segundo eles, US$ 130 milhões.
Este, segundo Ortuñez, será o "maior desafio" do governo para conseguir executar o plano que será elaborado por especialistas nacionais e internacionais.
Mas, enquanto isso, o segundo maior lago da Bolívia segue parecendo um deserto.

Pensamento Poético de Rabindranath Tagore.

 Rabindranath Tagore, poeta indiano, Nobel de Literatura:  “Se você chorar porque o sol se foi, as lágrimas não vão deixar você ver as estre...