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domingo, 14 de julho de 2013

O Escritor e a Primeira Pessoa



O difícil de criar um personagem na primeira pessoa é a sensação de autobiografia. Mais difícil ainda é para o leitor, que sempre associa a figura do autor ao do protagonista e, muitas vezes, ao narrador, que o autor usa para descrever o personagem e sua história na primeira ou terceira pessoa. E se o leitor conhece pessoalmente o autor fica difícil, também, abstrair a figura do personagem e separar da do autor do livro. Uma vez ouvi Jô Soares falando, numa entrevista a Chico Buarque, da dificuldade que teve para abstrair, quando leu Estorvo, de autoria de Chico. Neste caso o autor conhecido pelas suas lindas composições musicais. Quando escrevi o meu primeiro livro “Rainha sem Faixa”, escrito na primeira pessoa, senti na pele esse problema. Pessoas que me conheciam me questionavam sobre a personagem, no caso uma mulher, dando a entender que era uma autobiografia.

Um personagem é construído a partir de observações e reflexões do autor, pode até ter algo de autobiográfico, mas não necessariamente ou propositalmente, esteja ele na primeira pessoa ou não. Ele é um mosaico, feito com pedaços de muitos outros, que de repente podem se incorporar ao protagonista da história. Quando um autor começa a escrever, muitas vezes nem sabe no que vai dar o enredo. A história vai se desenrolando, levando o autor às mais diferente situações, e o coloca num desafio para encontrar uma saída coerente, usando as palavras certas que leve o leitor a abstrair e refletir de acordo com a sua própria interpretação ou processo mental. O leitor pode ser um crítico que vê coisas que o próprio autor não viu ou teve intenção de dizer. A arte não requer explicações. Não é uma ciência que tenha que valer para todos da mesma forma. Ela dá o seu recado e o efeito varia de acordo com a carapuça.