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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020


  • REDAÇÃO GALILEU
 ATUALIZADO EM 


Ligação química entre átomos é registrada pela primeira vez (Foto: Science Advances)

Pela primeira vez na história, cientistas da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, filmaram átomos rompendo e formando ligações químicas. O fenômeno microscópico ocorre em uma escala muito pequena, entre 0,1 e 0,3 nanômentro — o que é 500 mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo.
Métodos avançados de microscopia, como a microscopia de força atômica (AFM) ou a microscopia de tunelamento (STM), podem encontrar as posições dos átomos e medir diretamente o comprimento das ligações entre eles. Entretanto, registrar esses fenômenos em tempo real é algo bem mais complicado — e nem era essa a proposta do grupo no início da pesquisa.


A equipe tentava analisar dois átomos de um metal conhecido com rênio e, para isso, colocaram-nos em nanotubos de carbono. Então, sem querer, uma das moléculas presas ali escapou e parou em um espaço livre entre dois nanotubos. Lá, o vínculo entre os dois átomos de rênio se rompeu e então se ligou novamente.

Cientistas fizeram registro sem querer (Foto: Science Advances)

"Até onde sabemos, esta é a primeira vez que a evolução, a quebra e a formação de ligações [químicas] na escala atômica foram gravadas em filme. A microscopia eletrônica está se tornando uma ferramenta analítica para determinar estruturas de moléculas", disse Andrei Khlobystov, um dos pesquisadores, em comunicado. 


Fenômeno microscópico ocorre em uma escala 500 mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo (Foto: Science Advances)

Os cientistas ingleses, que publicaram o estudo no Science Advances, também descobriram novas informações sobre as ligações químicas do rênio — a proposta inicial da investigação. Segundo Stephen Skowron, responsável pelos cálculos da pesquisa, o metal estudado por eles pode formar diferentes tipos ligações, e determiná-las é importante para que os cientistas compreendam melhor as propriedades magnéticas, eletrônicas e catalíticas do material.
"Nesse experimento, observamos que os dois átomos de rênio são ligados principalmente através de uma ligação quádrupla", explicou Skowron. "Isso fornece novas ideias fundamentais sobre a química desse metal de transição."
Veja o vídeo completo capturado pelos cientistas.

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

EPÍLOGO: OS ESCRITORES E A CRÍTICA - por Frankilin Jorge


Escritor Frankilin Jorge
EPÍLOGO: OS ESCRITORES E A CRÍTICA

Por Frankilin Jorge - Escritor e Jornalista




Ainda muito moço, em visita a um tio avô humanista que vivia enfurnado em sua vasta e bem escolhida biblioteca, descobri em Marcel Proust uma nova concepção de critica, mais concisa, mais apaixonada, mais parcial, entendida sob um ponto de vista mais amplo e, de tal forma realizada, representaria ela mesma uma criação literária autônoma e digna da obra que a inspirara.

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Borges pôs em prática essa concepção estética proustiana, especialmente em seus prefácios que, a rigor, constituem pequenos e originais ensaios, razão pela qual têm sido publicados como obra de criação autônoma, tão digna quanto qualquer outra página que, por acaso, tenha escrito no curso de sua longa e laboriosa existência, toda ela voltada para a magia ilusionista da literatura.

Autor de uma cultura enciclopédica, pos-se Proust ao serviço da criação de uma obra polifônica que avulta, em sua literariedade, como um dos mais originais e perenes monumentos construídos pelo homem.

Observou Proust que a crítica constitui um gênero não-secundário, mas autônomo e digno como qualquer outro que provém do engenho humano que transforma a ideia – mais que palavras -- em realidade concreta.

Muito antes de escrever o roman-fleuve que o consagraria, Proust já se expressava como um crítico, ao propor, através de pastiches deliciosos que se farão presentes em sua obra futura, como que referendando o leitor em tudo exemplar – nutrido do que mamou no humanismo literário -- que foi por toda a vida. Prova-o e comprova-o as páginas ainda incipientes de seu livro de estréia, “Os prazeres e os dias”, na qual assoma, de maneira embrionária, algumas de suas obsessões que somente alcançariam a expressão definitiva em sua busca do tempo perdido.

Ainda muito jovem e quando ninguém suspeitava do gigantesco empreendimento que resultaria na elaboração dos sete volumes que compõem a polifonia proustiana, deu-nos – por assim dizer avant la lettre -- uma prova cabal desse novo gênero que alcançaria, nos últimos anos de sua vida já inteiramente submetida à execução de um projeto que seria - do ponto de vista literário - o equivalente das grandes catedrais multisseculares descritas por Ruskin, um dos seus mestres secretos.

A essas experiências chamou de recréation vivante, embrião de uma critica literária indireta ou do que chamou igualmente de claire analyse, um texto mais curto que o ensaio, apto a introduzir o leitor no corpus da obra sem a reverberação pretensiosa e monótona da critica convencional ou acadêmica. A crítica, em síntese, de um escritor de talento que se debruça sobre os processos utilizados por outros autores, prefigura a obra de arte produzida em plena consciência.

Grande pasticheur, como escritor e como indivíduo, possuía o dom de imitar com incômoda perfeição seus amigos e integrantes do circulo intimo do qual era uma espécie de animador, transpôs Proust para muito do que escreveu essa expressão do seu talento, imitando o vocabulário, a sintaxe e os cacoetes de autores, o que às vezes dá ao leitor do seu roman-fleuve a impressão de uma colcha de retalhos, tamanha a variedade de escritas que afloram ou estão embutidas nas páginas que elaborou com as minúcias de um criador que fosse também um botânico, um entomologista, um vivissector, um biologista, um naturalista, um psicólogo; enfim, alguém que fosse ao mesmo tempo caudatário de uma herança de séculos de cultura, um criador e um crítico de grande mérito em ação. 

Não satisfeito em imitar personagens do seu mundo, parodiava estilos, proporcionando ao leitor, ao discorrer sobre os autores que amava ou que apenas desejava caracterizar o estilo de cada um, resultando dessa invenção um dos atrativos misteriosos da sua própria arte, nascida da solidão e do silêncio.

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Do crítico que não discorda nem põe em dúvida, disse Grahan Greene que está apenas pensando em comer e beber de graça. A assertiva há de aplicar-se também aos editores e jornalistas que se comprazem em reportar os fatos sem questionamento ou manipulando-os, descaradamente, em contradição com o exercício intelectual sério que se nutre, antes de tudo, mais da dúvida do que da certeza.

Ao afirmá-lo, Greene concorda que escrever – como o resultado de um trabalho do intelecto -- é, por sua natureza reflexiva, interpretação e análise; algo, enfim, muito distante da complacência e da credulidade que devem ser colocadas à prova a todo instante por aqueles que fazem uso da palavra escrita para exprimir suas idéias e concatenar seus pensamentos em sentenças repletas de significados.

Eis porque o ato de escrever, quando realizado em plena consciência, nunca é desprovido de culpa. Talvez por isso um escritor francês - Mauriac- terá concluído que não se pode ser bom católico e bom escritor ao mesmo tempo. Afinal, escrever é um ato impiedoso originalmente praticado com o estilo, instrumento cortante usado pelos antigos escribas para lapidar as letras e formar as palavras nas primitivas tabuinhas que antecederam o papel como suporte da escrita. Escrever é, repita-se, inscrever e esculpir.

O intelectual que recalca a crítica -- seja por esperteza, covardia ou conveniência -- tem naturalmente motivos de sobra para fazê-lo. Mascara ou oculta interesses dos quais se envergonha ou não pode exibir em público para não se desmoralizar nem dar vexames.

Devemos, portanto, nos acautelar de todos aqueles que falam mal da crítica, de maneira subreptícia, pois nunca ousam jamais se mostrarem às claras, perseguem os críticos que ousam ir em busca do que é bom e belo, instrui e acarinha a nossa fome de arte. Afinal, bom e belo têm, semanticamente, como sabemos, a mesma excelência de significados.

A crítica só se realiza plenamente quando baseada na exigência de qualidade que, segundo Lênin, citado por Marx, deve estar presente em tudo. Por isso, o artista cônscio do que cria – e não apenas do artista, mas qualquer profissional de talento que não dá trela à vaidade nem se deixa dominar pelo amor-próprio, um dos outros nomes da mediocridade --, não pode prescindir de sua luz.

Todas essas lições, generosamente prodigadas por Grahan Greene, expõem à admiração um escritor que sabia discernir o trigo do joio e o ruim do apenas razoável. E que, por seu talento aprimorado pela cultura e pela experiência, enobrece indelevelmente a literatura em língua inglesa.

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Disse Baudelaire que a principal objeção a ser feita à crítica seria a notoriedade que às vezes confere a alguns artistas contemporâneos. Por seu caráter analítico e investigativo, tem tudo a ver com a sua ojeriza à arte como mera reprodução da natureza. Propositor de uma crítica “apaixonada, parcial e política”, Baudelaire entende, porém, que ao público só interessa o resultado.

Contrário à rigidez dos sistemas preestabelecidos, passíveis de ridículos, defende em suas “Curiosidades Estéticas” e “A Arte Romântica”, nas quais reuniu o que escreveu sobre a arte e os artistas, especialmente sobre os artistas plásticos do seu tempo, como o gravador, desenhista e aquarelista Constantin Guys; segundo ele o paradigma do pintor da vida moderna, anteviu o belo como promessa de felicidade e o expressou, premonitoriamente, em seu desdém aristocrático, através do “homem das multidões” imerso na pobreza e na banalidade da vida quotidiana, admiravelmente debuxado em seu caráter transitório, como o resultado da razão e do cálculo que devem estar presentes na criação.

Baudelaire parece justificar plenamente a ideia de que o poeta é o melhor critico. São exemplos entre nós Murilo Mendes, Ledo Ivo e Walmir Ayala, que se utilizaram da obra alheia para exprimir suas próprias ideias e dar curso, de maneira pensada e refletida, ao tumulto da imaginação. E, ao fazê-lo, mostraram-se como críticos em ação e de maneira apaixonada, parcial e política, segundo a lição do criador do conceito de modernidade, um dos mestres de Proust, que - um pouco antes de morrer - escreveu seu último texto sobre o autor das “As Flores do Mal”, num tributo pré-agônico àquele que encarnava de maneira integral e inequívoca um dos seus modelos plenamente capazes de aproximar o espírito humano do mistério da criação.

Baudelaire entendia a crítica de um ponto de vista mais amplo. Uma critica que não encontrava modelos entre os seus contemporâneos, pois se declarava, de maneira insolente - à maneira de um dândi que vê na injúria uma arte -, uma critica parcial, apaixonada e política.

A presunção de imparcialidade parecia-lhe imoral e escandalosa aplicada à crítica, que deveria ser - antes de mais nada - a expressão do individualismo, não podendo aplicar-se à criação sob pena de restringi-la e de trair a sua própria essência elaborada  e construída pelo intelecto. Uma cosa mentale acima das conveniências e dos preconceitos e, como tal, insubmissa e rebelde a preceitos redutores.

Como Balzac, Baudelaire crê que a imparcialidade resulta da abstenção e da apatia, não constituindo, por isso, em mérito nem virtude. Tomar partido, como uma manifestação de compromisso com a vida, eis, em síntese, o primeiro dever do critico cônscio do que cria, sem temer desagradar interesses nem suscetibilidades mórbidas.

Do crítico, não como comentarista ou registrador dos faustos literários, mas como alguém que dialoga com a obra, que a interroga, investiga e a enriquece, por fim, com uma leitura que se beneficia superiormente do conhecimento posterior.

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Montaigne perde as estribeiras e desacata o seu costumeiro racionalismo quando se detém sobre a produção literária do seu tempo, em grande parte semelhante ao que se faz em nossa época dominada pelo império das aparências. Por isso, reivindicou uma polícia para as letras que fosse capaz de coibir os excessos de autores sem distinção intelectual, meros compiladores de anedotários ou piratas da obra alheia, como vemos entre nós uma caterva de escrevinhadores vaidosos e medíocres, assaltando o livro e o jornal e neles imprimindo com impudor, como triunfadores, suas abusadas ejaculações precoces.

Tais fazedores de livros, existentes em grande número em todas as épocas, em conseqüência da democratização dos meios de comunicação e reprodução gráfica, seriam o equivalente, segundo o severo juízo montaigniano, daqueles indivíduos que se dedicam à vadiagem e, por isso mesmo, sujeitos às leis que punem os desocupados e vagabundos.

O excesso de autores indica uma anomalia. No mínimo, considera-se o descaso para com a qualidade que, como disse Lênin, há de estar presente em tudo, especialmente na elaboração de um artefato estético que implica em uma exaustiva busca do conhecimento e uma aplicação paciente e contínua ao estudo dos meios e processos de expressão que parecem faltar, evidentemente, nesses pseudo-autores, muitos dos quais regiamente mantidos em sinecuras pagas pelo contribuinte.

Em sua República das Letras, escrevinhadores banais e incultos seriam peremptoriamente banidos, a biblioteca seria o lugar de autores distintos que têm algo a dizer-nos, sem a estridência espaventosa do ridículo que amamenta as vaidades comezinhas e anedóticas em proliferação facilitada pelo absenteísmo de uma critica praticada por uma gente calejada pelo hábito e desprovida daquela virtude que faz parte da essência de um verdadeiro crítico – o prazer intelectual de associar-se a um autor de talento, cuja obra passa a ser, também, de sua responsabilidade.
                                                           
Criador do ensaio - gênero através do qual a cultura dialoga com o leitor -, Montaigne amplia o pensamento dos séculos que o precederam, ao escrever na solidão de sua torre-biblioteca, realizando em plena Renascença francesa um ideal herdado de Roma – o do ócio com dignidade, somente possível para alguém, como Montaigne, que era herdeiro de uma sólida cultura humanística; possuidor de abundantes recursos intelectuais e, como um grão-senhor, vivendo confortavelmente de rendas, sem quaisquer outras preocupações pela subsistência.

Aqui, o mais tolerante dos homens mostra-se especialmente irritável, ao deparar-se com a profusão de obras caracteristicamente medíocres que assolam então os prelos e sobrepujam a dignidade da escritura produzida em paciente conluio das palavras com as idéias longamente pensadas e repensadas.

Crítico em ação, Montaigne não tem o dogmatismo que provém do homem de um livro só. Amplo é o seu espectro intelectual, Não condescende com a má qualidade que parece estar em toda parte sob as mais diversas embalagens e rótulos, alardeados pela propaganda.

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Quando moço, embriagado de literatura e indiscutível Príncipe do Tirol, Luis da Câmara Cascudo exercitou a critica literária, enfocando a produção de autores norte-rio-grandenses reunida em “Alma Patrícia” [Atelier Tipográfico M.Victorino, Natal, 1921], reeditado 77 anos depois pela Fundação José Augusto, IV volume da Coleção Biblioteca Potiguar, numa edição chinfrim que se desmancha nas mãos do leitor ao ser folheada...

Tinha o autor 22 anos ao estrear em livro, inspirado na apreciação da obra de dezoito contemporâneos, dos quais alguns já falecidos, como Ferreira Itajubá, considerado o poeta homérico do Rio Grande do Norte, autor de “Terra Natal”, um dos nossos livros canônicos. Formado desde cedo na escola do humanismo, em sua época de menino e moço resumida nas lições do poeta Henrique Castriciano, de quem escreveu a biografia, Cascudo sentia-se elo de uma corrente e, por isso, esmerava-se em estudar e fazer conhecida a literatura local, por entender que o talento brilha melhor entre indivíduos de mérito. Ora, não adianta ter uma boa caligrafia num universo de manetas que não sabem ler.

Por isso, como primeira tarefa dispôs-se a colocar em evidência os talentos de seu tempo, escrevendo sobre os mesmos, como antes fizera com o proto-poeta potiguar Lourival Açucena, o seu mestre Castriciano, um intelectual cosmopolita cuja maior obra terá sido a criação da Escola Doméstica de Natal – que lhe sobrevive e engrandece o seu nome --, pois, de resto, era reconhecidamente preguiçosa e devia ter algum distúrbio que o fazia dormir até durante as solenidades de que participava, inclusive como vice-governador do Estado.

Cascudo retribuiu e demonstrou sua gratidão para com Castriciano construindo-lhe com palavras um monumento funerário que está a exigir uma reedição. “Nosso amigo Castriciano” conferiu-lhe, de fato, uma segunda vida, só possível, como diria Proust, através da imortalidade da arte. Penso que, ao fazê-lo, em sua estreia como escritor, Cascudo nos disse que espécie de intelectual e de artista seria, pois começou valorizando um poeta da terra que, embora sem obra significativa, encarnava de maneira exemplar o literato fim de século, culto e sofisticado amante dos livros e propagandista de ideias novas.

[Faz Cascudo a crítica impressionista, como faz todo escritor, para gáudio dos leitores que procuram antes o prazer do que o tédio que resulta, freqüentemente, da chamada critica acadêmica, firmada num jargão de especialista que desencoraja todo aquele leitor que não se entrega ao masoquismo de uma leitura forçada. Cascudo, ao contrário, escreve uma espécie de critica que nos estimula a ler o autor que ele propõe, às vezes, de maneira generosa, segundo um estilo personalíssimo que seduz e enreda, pois construído com aquele contagiante entusiasmo que, ainda citando Proust, seria o primeiro sinal do autentico talento. Do talento, como o de Cascudo, que tem algo a nos dizer e o diz da melhor forma, que é o que se espera de um escritor que não desmerece nem degrada o seu ofício.]

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Escrevendo em 1838 o que seria o cume de sua já célebre Comédia Humana, Balzac insere em “Esplendores e Misérias das Cortesãs”, ao falar das mulheres que se vendem, um curto e exato debuxo do que seria um critico em ação naquele momento vivido na França, no efervescente período entre a República e a Restauração. Entorpecido na labuta, para quem tudo são palavras, palavras, palavras, o crítico é caracterizado, em síntese, por uma profunda despreocupação para com as fórmulas da arte.

Ouçamo-lo:

 “[o crítico] leu tantas obras, viu tantas passarem, acostumou-se tanto às páginas escritas, passou por tantos desfechos, viu tantos dramas, fez tantos artigos sem dizer o que pensava, traindo tão freqüentemente a causa da arte em favor de suas amizades e de suas inimizades que adquire repugnância por todas as coisas e continua assim mesmo a julgá-las [...]” etc.

 

Qualquer semelhança com o que vemos hoje não será mera coincidência. Esse crítico, captado e descrito pela argúcia balzaquiana não parece ser exceção em nossos dias, quando a critica parece ter sucumbido ao que chamamos “dever de ofício”, ou seja, uma obrigação que cumprimos sem nenhum prazer e às vezes de má vontade, para não agredir os costumes vigentes numa época atéia em que o êxito é o supremo objetivo a ser alcançado a qualquer preço.

 

Tais sentenças se disseminam por toda a caudalosa obra de Balzac, que antevê a importância da critica para o artista e para a cultura, especialmente quando a volúpia consumista excede a reflexão. Sem a crítica, a obra exibiria apenas uma palidez de grama seca, pois dela estaria ausente o atrito que resulta do confronto de inteligências capazes de extrair, de uma página, o sentido profundo e secreto das entrelinhas e de tudo o que, por astúcia ou cálculo, o autor dissimulou no texto entregue à curiosidade ou à usufruição do leitor em busca não apenas da satisfação, mas do conhecimento que vai além da superfície do texto.

 

No entanto, Balzac encarece a critica como artigo de primeira necessidade à saúde da cultura. Mesmo sabendo que a vaidade do poeta o fará preferir o suplício ao julgamento de sua obra. Seria a critica não uma atividade delegada a terceiros – aos críticos --, mas parte inerente do processo criativo do escritor. Uma critica não imparcial e política, pois praticada – parcialmente, isto é, apaixonadamente -- pelo autor em beneficio de sua própria criação.


Refletindo sobre a lei que rege o escritor, visto como igual e, mesmo, superior ao estadista, confessa Balzac que o tempo da imparcialidade ainda não chegou para ele, que, no pleno exercício de sua condição de homem de letras, declara uma dedicação absoluta a princípios, como alguém que na moral e na política deve ter opiniões imutáveis, inerentes a um professor de homens que não precisam de mestres para duvidar. Em síntese, seria a imparcialidade no crítico uma forma de conivência ou capitulação diante do dever de ir mais além daquele ponto no qual o autor, por cansaço, incompetência ou satisfação, decidiu parar para escrever a grande, a baudelairiana, a inominável palavra.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Khalil Gibran
  • Filósofo e escritor libanês

    Biografia de Khalil Gibran

    Khalil Gibran (1883-1931) foi um filósofo, escritor, poeta, ensaísta e pintor libanês. Sua obra reflete a espiritualidade e os princípios que levam aos patamares mais altos da alma humana. É conhecido por ter criado frases inspiradoras. Seu livro mais conhecido é “O Profeta”.
    Khalil Gibran (1883-1931) nasceu em Bsharri, nas montanhas do Líbano, no dia 06 de janeiro de 1883. Viveu a maior parte de sua vida nos Estados Unidos, para onde se mudou com sua mãe, o irmão e duas irmãs no ano de 1894. Nascido Gibran Khalil Gibran, reduziu seu nome para Khalil Gibran. Em 1898 retornou para o Líbano onde completou seus estudos árabes, no Colégio da Sabedoria, em Beirute.
    Em 1902 voltou para os Estados Unidos. Nessa época escreveu poemas e meditações para um jornal árabe, publicado em Boston, chamado O Emigrante. Dedicou-se à pintura e ao desenho, numa arte mística que lhe é própria. Uma exposição com seus primeiros trabalhos despertou o interesse de Mary Haskell, diretora de uma escola americana, que lhe ofereceu um curso de artes em Paris. Publicou “A Música” (1905) e “As Ninfas do Vale” ( 1906).
    Entre os anos de 1908 e 1910, Khalil Gibran estudou em Paris, na Académie Julien, onde produziu telas com temas místicos. Uma de suas telas foi escolhida para a Exposição de Belas Artes. Nessa época escreveu “Espíritos Rebeldes” (1908). Em 1910 volta para Boston e nesse mesmo ano muda-se para Nova York, onde reúne em volta de si, diversos escritores libaneses e sírios, que formam uma academia literária (A Liga Literária), que publicava duas revistas árabes: As Artes e O Errante.
    Entre outros livros escritos em árabe estão: “Asas Partidas” (1912), “Uma Lágrima e um Sorriso” (1914), “A Procissão” (1919) e “Temporais” (1920).
    A partir de 1918, Khalil Gibran passou a escrever alguns de seus livros em inglês, entre eles, “O Louco” (1918), “O Precursor” (1920), “O Profeta” (1923), “Areia e Espuma” (1927), “Jesus, o Filho do Homem” (1928) e “Os Deuses da Terra” (1931). Sem abandonar a pintura, ilustrou seus livros e seus quadros foram expostos em Boston e em Nova York.
    Khalil Gibran faleceu, vítima de tuberculose, em Nova York, no dia 10 de abril de 1931. Após sua morte, foram publicados os livros: “O Errante”, “O Jardim Secreto do Profeta” e “Curiosidades e Belezas”.


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Ciclo do Nitrogênio


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Ciclo do Nitrogênio

As plantas requerem certo número de elementos além daqueles que obtêm diretamente da atmosfera (carbono e oxigênio sob a forma de dióxido de carbono) e da água do solo (hidrogênio e oxigênio).  
Todos estes elementos, com exceção de um, provêm da desintegração das rochas e são captados pelas plantas a partir do solo. A exceção é o nitrogênio, que representa 78% da atmosfera terrestre.  
As rochas da superfície terrestre constituam também a fonte primária de nitrogênio, este penetra no solo, indiretamente por meio da atmosfera, e, através do solo, penetra nas plantas que crescem sobre ele. 
A maioria dos seres vivos é incapaz de utilizar o nitrogênio atmosférico para sintetizar proteínas e outras substâncias orgânicas. Ao contrário do carbono e do oxigênio, o nitrogênio é muito pouco reativo do ponto de vista químico, e apenas certas bactérias e algas azuis possuem a capacidade altamente especializada de assimilar o nitrogênio da atmosfera e convertê-lo numa forma que pode ser usada pelas células.  A deficiência de nitrogênio utilizável constitui muitas vezes, o principal fator limitante do crescimento vegetal.
O processo pelo qual o nitrogênio circula através das plantas e do solo pela ação de organismos vivos é conhecido como ciclo do nitrogênio.

Amonificação

Grande parte do nitrogênio encontrado  no solo provém de materiais orgânicos mortos, nos quais existe sob a forma de compostos orgânicos complexos, tais como proteínas, aminoácidos, ácidos nucleicos e nucleótides.  Entretanto, estes compostos nitrogenados são, em geral, rapidamente decompostos em substâncias mais simples por organismos que vivem nos solos.  
As bactérias saprófitas e várias espécies de fungos são os principais responsáveis pela decomposição de materiais orgânicos mortos.  Estes microrganismos utilizam as proteínas e os aminoácidos como fonte para suas próprias proteínas e liberam o excesso de nitrogênio sob a forma de amônio (NH4+).  Este processo é denominado amonificação.  O nitrogênio pode ser fornecido sob a forma de gás amoníaco (NH3), mas este processo ocorre geralmente apenas durante a decomposição de grandes quantidades de materiais ricos em nitrogênio, como numa grande porção de adubo ou fertilizante.  Em geral, a amônia produzida por amonificação é dissolvida na água do solo, onde se combina a prótons para formar o íon amônio.

Nitrificação

Várias espécies de bactérias comumente encontradas nos solos são capazes de oxidar a amônia ou amônio.  A oxidação do amoníaco, conhecida como nitrificação, é um processo que produz energia e a energia liberada é utilizada por estas bactérias para reduzir o dióxido de carbono, da mesma forma que as plantas autotróficas utilizam a energia luminosa para a redução do dióxido de carbono.  Tais organismos são conhecidos como autotróficos quimiossintéticos (diferentes dos autotróficos fotossintéticos, como as plantas e as algas).  As bactérias nitrificantes quimiossintéticas Nitrosomonas e Nitrosococcus oxidam o amoníaco dando nitrito (NO2-):
2 NH3 + 3O2  -------->  2 NO2- + 2 H+ + 2 H2O
   (gás amoníaco)                (nitrito)
O nitrito é tóxico para as plantas superiores, mas raramente se acumula no solo.  Nitrobacter, outro gênero de bactéria, oxida o nitrito, formando nitrato (NO3-), novamente com liberação de energia:
2 NO2-  + O2  --------->  2 NO3-
   (nitrito)                          (nitrato)
O nitrato é a forma sob a qual quase todo o nitrogênio se move do solo para o interior das raízes. 
Poucas espécies vegetais são capazes de utilizar proteínas animais como fonte de nitrogênio.  Estas espécies, que compreendem as plantas carnívoras, possuem adaptações especiais utilizadas para atrair e capturar pequenos animais.  Digerem-se, absorvendo os compostos nitrogenados e outros compostos orgânicos e minerais, tais como potássio e fosfato.  As plantas carnívoras em sua maioria são encontradas em pântanos, que são em geral fortemente ácidos e, portanto, desfavoráveis ao crescimento de bactérias nitrificantes. 

Perda de nitrogênio

Conforme observamos, os compostos nitrogenados das plantas clorofiladas retornam ao solo com a morte das mesmas (ou dos animais que delas se alimentaram), sendo reprocessados pelos organismos e microrganismos do solo, absorvidos pelas raízes sob a forma de nitrato dissolvido na água do solo e reconvertidos em compostos orgânicos.  Durante o decorrer deste ciclo verifica-se sempre uma “perda” de certa quantidade de nitrogênio, no sentido de se tornar inutilizável para a planta.
Uma das principais causas desta perda de nitrogênio é a remoção de plantas do solo.  Os solos cultivados exibem frequentemente um declínio constante no conteúdo de nitrogênio. O nitrogênio pode ser também perdido quando a parte superficial do solo é decapitada pela erosão ou quando sua superfície é destruída pelo fogo.  O nitrogênio é também removido pela lixiviação; os nitratos e nitritos, que são anions, mostram-se particularmente suscetíveis à lixiviação pela água que se infiltra através do solo.  Em alguns solos, bactérias desnitrificantes decompõem os nitratos e liberam nitrogênio para o ar.  Este processo que fornece à bactéria o oxigênio necessário para a respiração é dispendioso em termos de necessidades energéticas (isto é, o O2 pode ser reduzido mais rapidamente que o NO3-) e ocorre extensamente apenas nos solos com deficiência de oxigênio, isto é, nos solos que são mal drenados e, portanto, pobremente arejados.
Algumas vezes, uma alta proporção do nitrogênio presente no solo não é disponível para as plantas.  Esta imobilização ocorre quando existe excesso de carbono.  Quando substâncias orgânicas ricas em carbono, mas pobres em nitrogênio, a palha é um bom exemplo, se encontram em abundância no solo, os microrganismos que atacam estas substâncias precisarão de mais nitrogênio do que contêm a fim de utilizar totalmente o carbono presente.  Em consequência, não utilizarão apenas o nitrogênio presente na palha ou material semelhante, mas também todos os sais de nitrogênio disponíveis no solo.  Consequentemente, este desequilíbrio tende a normalizar-se à medida que o carbono é fornecido sob a forma de dióxido de carbono pela respiração microbiana, e à medida que aumenta a proporção entre nitrogênio e carbono no solo.

Fixação do nitrogênio 

 Conforme podemos ver, se todo o nitrogênio que é removido do solo não fosse constantemente reposto, praticamente doa a vida neste planeta desapareceria finalmente.  O nitrogênio é reabastecido no solo pela fixação do nitrogênio.  A fixação do nitrogênio é o processo pelo qual o nitrogênio gasoso do ar é incorporado em compostos orgânicos nitrogenados e, assim, introduzido no ciclo do nitrogênio.  A fixação deste gás, que pode ser efetuada, em graus apreciáveis, por apenas algumas bactérias e algas azuis, é um processo do qual dependem atualmente todos os organismos vivos, da mesma forma que todos eles dependem, em última análise, da fotossíntese para a obtenção de energia.
 Uma a duas centenas de milhões de toneladas métricas de nitrogênio são acrescentadas à superfície terrestre a cada ano pelos sistemas biológicos.  O homem produz 28 milhões de toneladas métricas, cuja maior parte é utilizada como fertilizantes; no entanto, este processo é efetuado com alto custo energético em termos de combustíveis fôsseis.  A quantidade total de energia necessária para a produção de fertilizantes de amônio é atualmente estimada como equivalente a 2 milhões de barris de óleo por dia.  De fato, calcula-se que os custos da fertilização com nitrogênio estão atingindo o ponto de lucros decrescentes.  As culturas tradicionais em áreas tais como a Índia não atingem uma produção significativamente aumentada com a utilização de fertilizantes com nitrogênio, tendo baixas necessidades deste elemento, mas estão sendo atualmente substituídas por “cereais milagrosos” e outras culturas que não produzem mais com fertilização com nitrogênio - justamente numa época em que tal tratamento está se tornando proibitivamentedispendioso.
 Das várias classes de organismos fixadores de nitrogênio, as bactérias simbióticas são, incomparavelmente, as mais importantes em termos de quantidades totais de nitrogênio fixado.  A mais comum das bactérias fixadoras de nitrogênio é Rhizobium, que é um tipo de bactéria que invade as raízes de leguminosas (angiospermas da família Fabaceae ou Leguminosae), tais como trevo, ervilha, feijão, ervilhaca e alfafa.
Os efeitos benéficos das leguminosas sobre o solo são tão óbvios que foram reconhecidos há centenas de anos.  Teofrasto, que viveu no terceiro século a.C. escreveu que os gregos utilizavam culturas de feijão para enriquecer os solos.  Nos locais em que as leguminosas crescem, certa quantidade de nitrogênio “extra” pode ser liberada para o solo, onde se torna disponível para outras plantas.  Na agricultura moderna constitui prática comum alternar uma cultura não leguminosa, como o milho, com uma leguminosa, como a alfafa.  As leguminosas são então colhidas para feno deixando as raízes ricas em nitrogênio, ou ainda melhor, são aradas novamente no campo.  Uma boa colheita de alfafa, que é recolocada no solo, pode fornecer  450 quilogramas de nitrogênio por hectare.  A aplicação dos elementos vestigiais, cobalto e molibdênio, exigidos pelas bactérias simbióticas, incrementa grandemente a produção de nitrogênio se estes elementos estiverem presentes em quantidades limitantes, como em grande parte da Austrália.

Microrganismos fixadores de nitrogênio de vida livre 

As bactérias não simbióticas dos gêneros Azotobacter e Clostridium são capazes de fixar o nitrogênio.  Azotobacter é aeróbico, ao passo que Clostridium é anaeróbico; ambas são bactérias saprófitas comuns encontradas no solo.  Calcula-se que elas fornecem provavelmente cerca de 7 quilogramas de nitrogênio por hectare de solo por ano.  Outro grupo importante inclui muitas bactérias fotossintéticas.  As algas azuis de vida livre desempenham também um papel importante na fixação do nitrogênio.  São cruciais para o cultivo do arroz, que constitui a principal dieta de mais da metade da população mundial.  As algas azuis podem desempenhar também um importante papel ecológico na fixação do nitrogênio nos oceanos.  
A distinção entre fixação do nitrogênio por organismos de vida livre e simbióticos pode não ser tão rigorosa como se pensava tradicionalmente.  Alguns micróbios ocorrem regularmente no solo, ao redor das raízes de certas plantas que eliminam carboidratos, consumindo estes compostos e, ao mesmo tempo, fornecendo indiretamente nitrogênio para as plantas.  As associações simbióticas entre bactérias normalmente de vida livre, como Azotobacter, e as células de plantas superiores em culturas de tecido induziram seu crescimento num meio artificial carente de nitrogênio.







 Como referenciar: "Ciclo do Nitrogênio" em Só Biologia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2019. Consultado em 06/10/2019 às 22:32. Disponível na Internet em https://www.sobiologia.com.br/conteudos/Ar/nitrogenio.php


sábado, 5 de outubro de 2019

Ainda há tempo para a Gratidão.

Ainda há tempo para a Gratidão.

Mini Conto

Darcy Brito

Todos estão presentes? Podemos começar a festa?
Não. Está faltando o agregado, ele disse que vai se atrasar para a festa.
E disse o motivo?
Não. Mas falou que se quiserem podem começar sem a sua presença.
Mas que ingrato!
Eu não posso esperar
Eu também não.
Então gente, fazer o que? Começo ou não começo?
A festa é sua, então comece . Seus filhos estão presentes, é o que importa. Se ele quisesse participar já estaria  aqui.
Depois  se queixa que nunca o chamam pra nada só porque é agregado!
São desculpas. Gosta de se fazer de vítima.
Nem vou ficar para os parabéns. Depois como do bolo
Eu também.
Bem filhos, agradeço a presença de vocês e ....
Oba, oba, cheguei!  Me atrasei porque estava procurando as mais lindas rosas que pudessem expressar toda minha gratidão a  uma criatura que, muitas vezes, mesmo não sendo minha mãe, cantou as mais belas canções de ninar para eu  dormir quando ficava inquieto.
E elas não foram em vão. Seja bem vinda a gratidão.

Pensamento Poético de Rabindranath Tagore.

 Rabindranath Tagore, poeta indiano, Nobel de Literatura:  “Se você chorar porque o sol se foi, as lágrimas não vão deixar você ver as estre...